
Agora no fim de março tive a oportunidade de aprender serigrafia, ou silk-screen como a técnica também é conhecida.
De forma artesanal, aprendi literalmente desde a montagem da tela até a impressão no papel. A ideia era viabilizar a técnica para pequenas produções, que pudessem ser feitas em casa mesmo, através de adaptações do processo tradicional e com materiais de baixo custo. Só não fizemos a tinta – o resto foi tudo mão na massa :D. O curso foi ministrado por Francisco Martins e André Teixeira do coletivo Azucrina! de BH. Apesar de seguirem uma estética e estilo mais punk-rock, eles têm várias ideias em comum com o estilo superziperiano. No passo-a-passo vocês vão ver.
Vou contar em linhas gerais como é o processo da serigrafia, mais para matar a curiosidade de quem nunca viu e quer saber como é feito. Deixo também o registro de como foi este curso e algumas dicas que aprendi com o pessoal.
Chega de papo e vamos lá!

Materiais:
• Quadro pronto (ou caixote de madeira + serrote + grampeador de tapeceiro)
• Nylon
• Grampeador de tapeceiro
• Emulsão
• Sensibilizante
• Calha (ou régua, cartão de credito usado para aplicar a emulsão na tela
• Mesa de luz
• Água corrente (torneira, mangueira + borrifador)
• Tinta à base de água)
• Rodo de impressão
• Estopa
• Cândida/água sanitária (para desgravação da tela)
• Papéis variados para impressão
1. Lá na oficina, a gente montou o próprio quadro. Desmontamos caixote de feira e separamos as ripas para serem usadas como moldura. Deixe as madeiras no tamanho que quiser e corte os cantos em 45 graus para fazer as emendas. Com 4 partes você tem um quadrinho!

2. Prenda os cantos usando grampeador de tapeceiro, não se esqueça de colocar um protetor embaixo. Se a madeira for fina, o grampo pode furar a mesa. Depois, prenda o nylon na madeira grampeando apenas pontos de fixacão em 3 quinas, para o tecido não escapar. Com o nylon posicionado, prenda melhor o tecido em 3 lados colocando os grampos nestes sentidos: —– ou //////, sempre esticando bem.
3. Para o 4o lado, você precisará da ajuda de alguém para puxar bem o tecido (para baixo é o melhor jeito) porque a tela tem que ficar firme como um pandeiro! Repare que o acabamento do quadro é bem simples mesmo, mas é assim que a gente gosta!

4. Agora é hora de preparar a tela. Faça os próximos passos em um ambiente escuro porque você vai trabalhar com material sensível a luz.
5. Preparando a “cola verde” (ou emulsão): misture a emulsão fotográfica com o sensibilizante na proporção de 10 partes para 1, sem agitar muito para não fazer bolhas.
6. Aplique a solução na tela com a ajuda de um cartão de crédito (ou calha, se voce for pró). Não deixe acumular tinta, tem que ficar uma camada bem fininha.
7. Enquanto seca (pode usar ventilador ou um secador com vento frio para acelerar o processo), prepare seu desenho. A versão final tem que ser feita em um papel transparente (vegetal ou fotolito). Eu desenhei com canetinha preta bem opaca, mas se quiser pode fazer no computador e levar em uma gráfica/xerox para imprimir no papel certo (avise que é para serigrafia que eles vão entender e caprichar no contraste!)
8. Em seguida, “queime” a arte na tela. Nesta oficina, usamos uma mesa de luz (também em sala escura). A arte deve ser colocada sobre o vidro no sentido normal da impressão. Os pesos improvisados em cima da tela são para evitar sombras – a arte deve ter o máximo contato tela e o vidro. O tempo de exposição à luz varia muito. Neste curso, variou de 4 a 5 minutos, mas depende muito das lâmpadas. Vale fazer um teste de calibragem antes.

9. Para revelar a tela, molhe-a dos dois lados em uma torneira. Use uma mangueira ou um borrifador de plantas para retirar a emulsão das áreas “queimadas”. Nas áreas pretas, a tinta fica mole e descolará da tela com jatos fortes de água. Quando o desenho estiver “transparente”, deixe a tela secando ao sol.
10. Separe as tintas que vai usar. Devem ser adequadas ao tipo de superfície que você pretende imprimir (tinta para papel é diferente de tinta para tecido) e ao tipo de nylon utilizado. Dependendo da quantidade de fios da trama, você vai precisar de uma tinta mais fina ou mais grossa.
11. Separe também acessórios para misturar e aplicar a tinta: espátulas, colheres, vasilhas, pratinhos e cartões de crédito usados.

12. Deixe a mesa preparada. Em um canto, posicione a pilha de papéis que vai usar na impressão. Deixe também um espaco reservado para colocar as impressões lado a lado sem empilhar enquanto a tinta seca.
13. Coloque a tinta em uma área livre da tela. Posicione a tela sobre o papel e passe a tinta de um lado para o outro com a ajuda do cartão de crédito (ou rodo). Este movimento faz a tinta passar pela parte aberta da trama (seu desenho) e ser aplicada no papel – uma única passagem forte é suficiente.
Dica dos professores: não perca tempo admirando seu trabalho! A tinta seca rápido e pode entupir os “poros” abertos.
14. Faça uma sequência completa de impressão e, quando terminar, lave a tela imediatamente.
15. Deixe as impressões secando totalmente em um varal.

16. As telas lavadas também precisam secar antes de ser usadas novamente. Depois de seco, você pode trocar a cor da tinta e começar tudo de novo. Vale improvisar e imprimir em cima de outros desenhos, fica muito legal. Fiz varias experiencias com cores e tipos de papeis, olha aí o passarinho do tricot!
17. Guarde a tela limpa e seca para futuras impressões. A “cola verde” não dura para sempre! Depois de um certo número de vezes, começa a se desgastar e o desenho perde a definição. No meu caso, a vida util foi de umas 30 impressões. Claro que tudo vai depender das matérias-primas usadas e também do cuidado nos processos de impressão e lavagem.
Se enjoar do desenho, você pode lavar a tela com cândida/água sanitária e reaproveitar a mesma tela para uma nova arte.
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Em resumo é isso! Gostei bastante de fazer tudo mas não sei se na próxima vez vou faria tudo do começo ao fim. O desenho com certeza vai ser meu, mas é bem provável que eu encomende a tela para alguém, até porque eu não tenho mesa de luz em casa.
A parte da impressão gostei de fazer. E curti bastante essa coisa de achar acertos nos erros – o processo leva a descobertas legais.
Se alguém tiver interesse de reproduzir a técnica em casa, aconselho procurar no Google mais informações de cada etapa porque tem alguns detalhamentos que não incluí aqui no post. Além disso, os materiais utilizados variam muito conforme a aplicação. Por exemplo, o tecido de nylon para a tela tem tramas com mais e menos fios, indicados para tipos diferentes de tinta. Quem for comprar material (na Galeria do Rock em SP tem tudo) peça orientação para os vendedores que eles podem ajudar. Mais uma dica dos professores: na galeria do Rock tem gente para fazer qualquer etapa para você! Só cuidado para levar a arte pronta, assim você tem mais controle de que seu desenho não vai circular por engano
Se alguém se interessar em fazer o curso ao vivo, procure por infos no site do IdeaFixa, que organiza as classes. As vagas das próximas turmas estão esgotadas, mas fiquem de olho nas datas das novas turmas. Por sorte, eu consegui um espacinho graças a uma desistência!
Os comentários estão abertos para dúvidas, dicas :).
(Agradecimento especial Murilo (Moow) e Azucrina! que gentilmente cederam a maioria das fotos)