
Eu adoro coincidências – e pelo jeito as atraio, porque vivem acontecendo comigo. Sempre conto a história do que se passou para uma ou outra pessoa, mas com o tempo inevitavelmente vou esquecendo delas. Na semana passada, quando a Andrea esteve por aqui me aconteceu algo que redeu uma história- e das boas! Decidi então que essa eu iria deixar registrada, com foto e tudo mais!
Tudo começou há quase um ano. Aqui em Londres existem muitas lojas tipo Charity Shops. São como brechós beneficientes que recebem doações e vendem para angariar fundos para causas. Eu passei na filial da British Heart Foundation, a loja de caridade do meu bairro para deixar uma sacola de roupas. Logo na entrada, vi sobre o balcão de “novidades” (ou melhor, doações recentes) uma máquina de costura dos anos 60, dessas pequenas para criança, movida a energia. Ela estava suja e mal cuidada, com o fio elétrico meio solto. Perguntei se ela funcionava, mas a moça não soube responder. Deixei minha doação e fiquei tentada a levar a máquina para casa, custava só 5 pounds. Mesmo que não funcionasse, ficaria linda como decoração – ela era vintage, e ainda por cima de cor laranja! Mas sei lá o que me deu e fiquei em dúvida. Ao invés de comprar, pedi apenas para deixar reservada em meu nome – no domingo eu voltaria para buscá-la, pensei.

Já não lembro mais o que aconteceu no dia seguinte – se foi preguiça, chuva, cansaço. O fato é que não voltei para pegar a máquina (!). Na outra semana, depois de pensar e pensar no levo-não-levo, resolvi que queria comprá-la. Mas…… a máquina já não estava mais lá. Alguém já tinha comprado antes de mim, é óbvio. Fiquei arrependida e brava comigo mesmo por ter demorado tanto tempo para decidir. Daí que passei pela loja por semanas e semanas pra ver se a máquina reaparecia – quem sabe o comprador se cansou e resolveu devolvê-la? Até recado com a balconista eu deixei. Mas se passaram meses e nada… O tempo passou e a decepção também. Mas confesso que lá no fundo fiquei com aquele desejo secreto.
Semana passada, a Andrea veio pra cá e fomos jantar num restaurante perto da tal loja de caridade. Foi só passar em frente, que a história toda voltou, junto com o arrependimento, a chateação, etc. A Andrea tentou me reconfortar dizendo que quem sabe um dia eu voltaria a achar uma máquina de costura desse tipo. Eu dei uma risadinha como quem não acredita muito, mas também não tinha mais o que dizer.
No domingo de manhã, combinamos o passeio do dia – a idéia era passear por algum mercado. A Andrea sugeriu o de Greenwich, mas eu não me animei muito. “Que tal irmos pro Columbia Road Market?”. Ela, que nunca tinha estado por aqueles lados, topou na hora. Fizemos um belo passeio. Lá pelas 3 da tarde, os feirantes começam a recolher as coisas pra ir embora. Como ainda estava cedo, decidimos ir a pé pra Brick Lane. Mas antes de sairmos, lembrei de umas barracas que ficavam na rua de trás do mercado – uma moça vendia uns bric-a-bracs que a Andrea certamente gostaria. Então mudamos um pouco o percurso e resolvemos passar por lá. O ritmo era o mesmo: todos encaixotando as coisas e se preparando para partir. Enquanto a Andrea foi xeretar os poucos objetos expostos na barraca que falei, resolvi dar uma espiada na barraca do lado. E eis que encontro a mini máquina de costura! Até me assustei. Mas como quem não quer perder a oportunidade mais uma vez, logo pergunto:
– Moço, quanto custa?
– 5 pounds
– “Deal done”, vou levar.
– Ponho num saquinho?
– Yes, please. Nem Tô acreditanto…
– What?
E desando a contar da coincidência para ele, afinal, o assunto estava esquecido havia meses. E parece que foi só voltar a falar da maquininha que o “universo conspirou”. Ele se divertiu e disse que, além da máquina, agora eu tinha “uma boa história para contar”.