O “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta” é o tipo de projeto que eu adoraria ter feito. Muito bem escrito por Alberto Villas, é uma coletânea de ‘palavras que sumiram do mapa’. Li em uma entrevista, que a ideia surgiu quando ele chegou em casa falando para a filha pequena que “estava um bagaço” e ela não entendeu o que essa gíria significava. Daí que ele resolveu coletar palavras queridas e pouco usadas hoje em dia e colocou em um livro super bem-humorado e gostoso de consultar.
Engraçado que o livro fez ‘cair a ficha’ de que realmente já sou de uma geração passada, marcada por palavras e contextos que nem existem mais (ou são menos comuns). Ms só percebi lendo o livro, porque várias eu ainda uso como se fossem super comuns. “Putzgrila, isso também ninguém fala mais?” Coqueluche, creme rinse, decoreba, de fininho, inhaca, japona, lorota, muquifo, pandarecos, patavina, tiquinho… Muitas são tão familiares, palavras que a gente lia no gibi, tipo fiu-fiu, sirigaita, tampinha, teteia. E os xingamentos então, beiram a ingenuidade nos dias de hoje: panaca, palerma, tantã, bocó, boçal, jacu.
A estrutura do livro é como a de um dicionário. As palavras estão organizadas por ordem alfabética. E cada verbete segue a mesma estrutura: palavra + definição direta + historinha para contextualizar + palavra substituta para os dias de hoje. Vejam um exemplo:
cerzir
Costurar uma roupa puída.
Se já não se fala mais cerzir, imagine, então, puir. Mas cerzia-se muita roupa puída. As roupas não eram tão descartáveis como as de hoje. Rasgava, cerzia-se. Só se desfazia de uma roupa quando ela começcava a desmanchar. Toda mulher prendada sabia, além de lavar, passar, arrumar e costurar, cerzir. Costureiras estavam sempre cerzindo joelhos de calças de meninos que viviam arrastando-se pelo chão para jogar bolinha de gude.
Hoje, cerzir é fazer um reparo na roupa.
Sou uma apaixonada por palavras. Elas realmente contam histórias e mostram muito do contexto, cultura e mentalidade da época em que eram usadas. Vamos então ver um retrato do mundo da costura, afazeres domésticos e moda. Reuni abaixo as palavras do nosso mundinho que aparecem listadas neste dicionário.
abotoadura – presilha para abotoar o punho da camisa social. Hoje, só os mais velhos usam abotoadura. Será?
alinhado – bem-vestido. Hoje, uma pessoa alinhada é uma pessoa chique.
alpaca – tecido fino feito com a pele de um animal chamado alpaca. Hoje, alpaca virou simplesmente tecido fino.
anágua – roupa íntima cheia de rendinhas. Hoje, anágua não tem nada correspondente. Sumiu do mapa.
armarinho – loja que vende miúdezas. Hoje, os armarinhos sobrevivem nos subsolos de shopping centers, mas não têm nada a ver com o Armarinho do Mitre.
aviamento – material de costura. Hoje, a palavra aviamento simplesmente sumiu do mapa.
bainha – barra da calça. Hoje, a bainha da calça virou barra.
chulear – coser a ponta de um tecido para que não desfie. Hoje, chulear continua sendo chulear, mas quase ninguém mais diz que vai chulear.
conjuntinho – combinação de duas peças de roupa. Hoje, o conjuntinho só é usado por pessoas com mais de sessenta anos.
coser – costurar. Hoje, coser é simplesmente costurar.
cotelê – tecido em veludo ondulado. Hoje, cotelê continua sendo cotelê, mas poucas pessoas falam.
engomar – passar a roupa com um preparado à base de goma. Hoje, engomar uma roupa é coisa rara.
fecho éclair – fecho utilizado em vestimentar. Hoje, fecho éclair é chamado simplesmente de zíper.
manequim – jovem que participa de desfiles de moda. Hoje, toda manequim é chamada de top model.
mantô – vestimenta usada no inverno. Hoje, o mantô virou um casaco.
meia soquete – meia de cano curto. Hoje, meia soquete perdeu o soquete e é chamada apenas de meia.
popeline – tecido de algodão feito de fios finos. Hoje, ninguém mais diz popeline. Diz simplesmente pano.
sianinha – fita ondulada usada principalmente em roupas juninas. Hoje, a pobre sianinha, coitada, anda esquecida, mas, quando chegam as festas juninas, continua sendo chamada de sianinha.
suéter – blusa de lã. Hoje, em vez de dizer suéter, diz-se agasalho.
tinturaria – local onde se lava e passa roupa. Hoje, tinturaria virou lavanderia.
tricoline – tecido leve de algodão sedoso. Hoje, ninguém mais especifica tricoline. Diz apenas pano.
Mas não nem se ofendam, é um livro de crônicas! Não vamos transformar isso em um bafafá! O autor é homem e talvez por isso tenha perdido contato com algumas das palavras que, nós por exemplo, continuamos usando a todo vapor, como tricoline e sianinha. Além disso, são palavras que pertenciam a uma realidade que um dia foi muito comum e hoje não é mais, por exemplo passar no armarinho, mandar um casaco para o tintureiro ou cerzir o joelho da calça. Outras, refletem a moda de uma época que passou, como usar conjuntinho e desejar aquela calça de veludo cotelê!
O livro é ótimo para ter em casa ou dar de presente. Não é porque eu adiantei aqui algumas palavras, que perdeu a graça. Afinal, é nas historinhas que está o maior resgate ao passado
E fica o convite para manter estas (e outras) palavras vivas. Assumo o compromisso de incluir várias nas minhas conversas, mesmo que me tachem de cafona e coroca ;-)





































