
Banda Shekoyokh tocando no mercado de flores de Columbia Road em Londres
Faz um tempo participei de um workshop de instrumentos de sopro (flauta, clarinete e sax) na escola de música onde eu estudava. O objetivo era reciclar conhecimento, aprender um pouco mais de instrumentos correlatos e, no fim do dia, até arriscar uma jam session com outros alunos. Como minha flauta anda parada há uns bons 2 anos, esta última parte até me deu um frio na barriga – estava mais interessada na parte de ouvir o que os convidados da escola tinham a contar.
O primeiro deles era o Ivan Meyer, irmão do meu professor. Ele começou contando um resumo de sua vida, desde criança quando era um mau aluno, passando pela adolescência quando a música entrou de vez em sua vida, até os dias de hoje. Ele aproveitou essa experiência para falar sobre aprendizado, esforço, dom e vontade.
Apesar do fio condutor ser música, eu não conseguia evitar fazer um paralelo com as asrtes manuais. Principalmente porque essa palestra aconteceu bem na época em que eu estava aprendendo a fazer tricô com os vídeos que a Andrea disponibilizou aqui no Superziper.
Ele falava de sopro e de leitura de partitura; eu lembrava do jeito de enrolar a lã nos dedos e de como contar os pontos tricotados. Antes que eu me perdesse nos pensamentos, tirei rapidamente meu caderninho da bolsa e anotei várias coisas legais. São 5 lições de música que gostaria de compartilhar com vocês – acho que tem tudo a ver com crafts também!
TEMA 1: dom X talento X vocação
Na música sempre aparece alguém que diz “aaah, mas eu não tenho (ou não nasci com) esse dom…”. Segundo a lógica dele, há salvação. Ele explicou que o dom realmente é algo divino, que nasce junto com a pessoa. Já o talento é fruto de trabalho, enquanto que a vocação é a força de vontade. A melhor combinação que pode existir é quando os três estão em sintonia. Lembrem de pessoas e vocês vão achar exemplos de gente que tem o dom, mas não tem vontade de explorá-lo. Ou de quem tem vontade mas não quer investir talento (trabalho). A boa notícia é que com vontade e talento dá para compensar a falta de dom! Ou seja, muito esforço mental e físico!
♥ Minha lição: vou insistir no tricô. Mesmo tendo aprendido a técnica com bem mais de 30 anos, ainda tenho esperanças. Quero muito avançar nas lições para um dia fazer a blusa das corujinhas!
TEMA 2: repetição
Quando você aprende uma coisa nova, o cérebro ainda está aprendendo a formar o caminho deste aprendizado. Quanto mais você repete, mais você exercita a sua memória muscular para aquela atividade. Ensine seu cérebro a formar uma imagem mental daquela atividade, deixe que ele capte o ritmo, associe com algum “mantra”. Com muito esforço e repetição, você vai se sentir cada vez mais confortável. Comparando com o karatê, os alunos aprendem o movimento praticamente em câmera lenta. Assim eles podem memorizar. No começo, as coisas precisam ser visualizadas lentamente, até o cérebro absorver. Mas depois que aprendeu, você consegue fazer mais rápido.
♥ Minha lição: tricotar muito muito muito. Vou saber que aprendi no dia em que eu consiga assistir TV tricotando ;-)
TEMA 3: escolha os instrumentos
Tem guitarrista que gosta de usar as cordas “duras”. Tem outros que preferem as mais leves. No sax, tem gente que prefere as molas soltas, ou leves, ou duras. Não tem certo ou errado. Cada um deve usar o que funciona melhor para a sua sensibilidade. Depende da mão da pessoa, do jeito de dedilhar, do jeito de soprar….. Para descobrir, só testanto os extremos e ir percebendo o que funciona melhor pra você.
♥ Minha lição: já testei agulhas grossas e também as mais finas. Por enquanto só usei das de plástico. Na próxima edição do PicKnit vou pedir emprestado para testar as circulares de metal e também as de bambu. Vai que alguma delas funciona melhor comigo!
TEMA 4: simplifique
O começo do aprendizado pode ser muito confuso para a cabeça. É tanta informação que você não sabe o que fazer primeiro – muita coisa para controlar ao mesmo tempo. Quem aprende a tocar flauta, por exemplo, tem que estar atento para a forma de soprar, o formato dos lábios, a pressão do ar, o jeito de dedilhar as teclas, a posição dos braços – isso sem falar na leitura da partitura e no ritmo da música. É tanta coisa que pode gerar ansiedade. E isso pode levar a um bloqueio, nada dá certo, a pessoa se irrita e ….desiste! Que tal então isolar as tarefas? Muitos músicos treinam só o dedilhado ou só o sopro. Se uma pessoa que toca flauta não quer incomodar os vizinhos de noite, ela pode aproveitar para treinar só o movimento dos dedos, sem soprar. É um jeito de ajudar o cérebro a se sentir confortável com essa etapa.
♥ Minha lição: antes de partir para a blusa das corujas, vou fazer muitos quadrados de tricô, treinando vários tipos de pontos isoladamente. Quando eu estiver a vontade com eles, atacarei projetos mais complicados. Antes da blusa, que pelo menos eu consiga fazer o chaveirinho de corujas!
TEMA 5: o que NÃO estudar
As vezes tem gente que estuda música de 4 a 5 horas e não melhora. Continua tocando muito mal. Daí essa pessoa sai de férias por um mês, esquece o instrumento, e quando volta para ensaiar é outro som, tudo melhora. Como explicar isso? Pode acontecer de essa pessoa ter aprendido o erro e gastar toda essa quantidade de horas diárias reforçando o erro. Quando a pessoa pára, o cérebro se esquece desse condicionamento e a pessoa pode voltar mais relaxada e acertar o jeito. Por isso que é importante ter alguém com quem dividir a técnica, participar de workshops e encontros, falar com pessoas, ver como os outros fazem, aprendem e ensaiam. As vezes essa troca de experiências cara a cara abre novos caminhos. Aconselho.
♥ Minha lição: quando eu copiava as etapas do tricô nos vídeos, estava tão tensa querendo conseguir fazer um ponto que nem reparei que eu estava fazendo o movimento espelhado no ponto meia – eu passava a lã totalmente ao contrário. Quando encontrei a Andrea pessoalmente, aproveitei para tirar dúvidas e no meio do papo ela reparou que eu estava fazendo o movimento errado. Mas eu não tinha percebido porque do meu jeito as coisas funcionavam – até fiz um postal de tricô desse jeito! O problema é que desse jeito, eu teria problemas quando começasse a misturar o ponto meia com outros tipos de pontos. Ela me corrigiu, devagar eu decorei o novo jeito e agora eu tricoto do jeito certo.
Espero que esses ensinamentos possam ser úteis pra quem passa por aqui, independente de qual é a técnica que cada um pratica. E ainda pode servir de incentivo para quem duvida que um dia pode vir a costurar, tricotar, crochetar ……ou se empenhar em aprender qualquer outra forma de criação!